A discriminação apresenta-se de maneira dissimulada numa nação de mestiços
A questão do preconceito racial é uma discussão muito antiga, que é enfatizada nos mais diversos filmes e novelas, porém ainda assim é um tema polêmico. O ato de julgar uma pessoa inferior por ter a aparência e uma cultura diferentes não nos faz melhores do que ninguém, então por que será que muitos não deixam de lado essa prática?
O sindicalista e co-fundador do Conselho Afro de São José do Rio Preto, João Alfredo de Oliveira, deu sua opinião a respeito do preconceito e discriminação que os negros ainda sofrem em pleno século XXI.
Hoje há algum projeto pra mudar essa realidade em que se encontra o preconceito no Brasil, e tentar mostrar às pessoas que não há diferença entres os seres humanos?
“Hoje muito se fala em prol do negro e pouco se faz. Pessoas com cargos eletivos, na maioria das vezes, levantam a bandeira do negro como promoção da própria imagem ao invés de se preocuparem realmente com a causa. Não basta apenas criar projetos, o ensino tem que vir desde a escola mostrando todos como irmãos. Há alguns anos assisti a uma palestra que não era aberta ao debate, o palestrante afirmou que o negro tem o intelecto abaixo dos demais, que seu raciocínio é inferior. Isso, além de passar uma falsa ideia, cultiva o preconceito.”
Você já sofreu algum tipo de discriminação?
“Sim várias vezes, muitas delas as pessoas não percebem estarem sendo preconceituosas, com comentários e insinuações. O cargo que atingi atualmente como sindicalista é de grande importância, por isso alguns não admitem que um negro esteja em maior evidência. O que causa certo desconforto com meus próprios colegas de trabalho.”
Para combater o racismo e preconceito, a solução é impor leis anti-racistas como fez o Brasil?
“Não porque é uma forma de mascarar o preconceito existente. No Brasil, há o que chamamos de racismo ‘velado’, é o pior que existe, é aquele que todos sabem que existe, mas que ninguém admite. Leis que punem pessoas que praticam o racismo são viáveis, mas que impõem ao cidadão o que ele deve ou não sentir, nada mais é do que disseminar uma falsa ideia e mascarar a realidade.”
Entrevista com a Secretária do Conselho Afro de São José do Rio Preto, Cláudia Maria Francelina Alves.
A atual secretária do conselho Afro em Rio Preto, Cláudia Maria Francelina Alves, tem um trabalho árduo junto à presidente Cecília Nunes para tentar mudar a realidade do afro descendente em rio preto. Em entrevista, Cláudia pode nos contar um pouco sobre como enxerga o racismo, e quais são suas expectativas para o futuro.
Como é o mercado de trabalho para mulheres negras na região?
Infelizmente a mulher negra sofre um duplo preconceito de gênero, por ser negra e por ser mulher; suas habilidades são aproveitadas, na maioria das vezes, na área doméstica, rendendo a elas os menores salários e as piores condições para sustentar uma família.
Em sua opinião o preconceito racial se confunde também com preconceito de classes?
Confunde-se sim. São poucas as pessoas negras bem sucedidas no Brasil. Por isso o homem negro muitas vezes já é submetido a imagem de um homem humilde, ou seja pobre.
Por isso acredito que as cotas nas universidades são uma alternativa para mudar essa realidade.
As cotas nas universidades são um benefício ou serve apenas para mascarar o mau ensino nas escolas públicas?
Sim acredito que seja um benefício, serve também como uma forma de reparação para que haja um avanço, pois somente assim poderemos falar sobre igualdade. Pessoas entendem mal como funciona o sistema de cotas. Não apenas são abertas vagas para pessoas negras entrarem na universidade sem nenhuma qualificação, como enfrentam um vestibular normal como qualquer outro candidato. Do mesmo modo que a empresa de ônibus tem sua cota para idosos, a universidade também tem para negros.
E qual seria a maneira mais eficaz de anular esse tipo de pensamento nas pessoas?
Para mudar essa realidade temos como base a lei 10.639, que obriga todas as escolas do ensino fundamental a abordarem assuntos da civilização africana e da África, não falando apenas da escravidão ou da miséria, mas da rica cultura que esse povo trouxe ao nosso país; como culinária, folclore, músicas entre outros. Crianças negras quando conhecerem essa riqueza começarão a se valorizar e a sentir orgulho; já as crianças brancas começarão a ver o negro de outro modo, não apenas do sofrimento e da pobreza. Isso fará uma grande diferença futuramente.
Entrevistas realizadas em 2009, em função de trabalho para faculdade 1º ano de JN,
Matéria: teoria da comunicação. Prof. Rodrigo Lorenzo.